Propaganda antes da obra?

A propaganda da Ponte Salvador-Itaparica virou novo alvo de críticas de ACM Neto (União Brasil), que acusa o consórcio responsável pelo empreendimento de promover uma campanha publicitária em massa justamente após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao canteiro de obras, em Vera Cruz.

A coincidência de datas chamou atenção do ex-prefeito de Salvador. Lula esteve no local no dia 1º de julho, em um ato que marcou simbolicamente o início da construção. Desde então, segundo Neto, Salvador e outras cidades baianas passaram a ser tomadas por outdoors e peças publicitárias apresentando a ponte como uma realidade cada vez mais próxima.

A crítica foi feita durante uma sessão especial na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), em homenagem aos 215 anos da Associação Comercial da Bahia (ACB).

Para Neto, há um evidente contraste entre o volume da propaganda e o estágio atual da obra. O candidato ao Governo da Bahia ironizou o fato de a campanha já estar espalhada pelo estado enquanto, segundo ele, ainda não haveria sequer “uma estaca batida”.

Neto anuncia medidas contra publicidade

ACM Neto afirmou que pretende adotar medidas legais e judiciais contra a campanha publicitária. Na avaliação dele, a divulgação pode representar uma tentativa de interferência no processo eleitoral, sobretudo pela proximidade visual e narrativa que, segundo afirmou, existiria entre as peças do consórcio e campanhas já realizadas pelo Governo da Bahia.

O ex-prefeito também levantou outro questionamento: quem está pagando pela publicidade?

Segundo Neto, mesmo que a campanha seja executada formalmente pelo consórcio, o custo pode acabar recaindo, de alguma forma, sobre os cofres públicos e, consequentemente, sobre o contribuinte baiano.

Ele prometeu que, caso seja eleito governador, não permitirá gastos com propaganda da ponte enquanto o empreendimento não estiver efetivamente concluído.

Obra bilionária ainda cercada de questionamentos

A Ponte Salvador-Itaparica é um dos maiores projetos de infraestrutura anunciados na Bahia. O investimento estimado é de aproximadamente R$ 11,6 bilhões, dentro de uma Parceria Público-Privada entre o Governo do Estado e um consórcio liderado pelas empresas chinesas China Communications Construction Company (CCCC) e China Civil Engineering Construction Corporation (CCECC).

O empreendimento já recebeu mais de 800 toneladas de equipamentos e componentes vindos da China, desembarcados no Porto de Salvador para utilização na estrutura.

Apesar disso, a obra atravessa anos de anúncios, revisões, mudanças de cronograma e sucessivas promessas de avanço, o que tornou o projeto um dos símbolos mais explorados politicamente pelo governo estadual.

Agora, em pleno ano eleitoral, a intensificação da publicidade voltou a colocar a ponte no centro da disputa política baiana.

“Caixa-preta” da ponte

ACM Neto também afirmou que, se chegar ao Palácio de Ondina, pretende revisar contratos relacionados ao projeto e cobrar explicações detalhadas sobre a execução da obra.

O candidato chegou a dizer que pretende “abrir a caixa-preta” da Ponte Salvador-Itaparica e não descartou pedir investigação criminal caso encontre elementos que, na avaliação dele, justifiquem uma apuração mais profunda.

A fala aumenta a pressão sobre um projeto que, apesar de bilionário e anunciado há anos como transformador para a mobilidade e a economia da Bahia, ainda enfrenta desconfiança de parte da população justamente pela distância entre as promessas acumuladas e o avanço físico percebido.

Coincidência ou estratégia?

A sequência dos acontecimentos alimenta o questionamento: Lula visita o canteiro em 1º de julho, participa de um evento tratado como marco para o início da construção e, nas semanas seguintes, a propaganda da ponte ganha força pelas ruas de Salvador e do interior.

Agora, ACM Neto coloca essa movimentação sob suspeita e promete levar o caso à Justiça.

Em um cenário eleitoral cada vez mais acirrado, a Ponte Salvador-Itaparica deixa de ser apenas uma obra de infraestrutura e passa, mais uma vez, a ocupar espaço como peça central da disputa política na Bahia.

E a pergunta que fica é simples: se a ponte ainda está longe de pronta, por que tanta pressa para vendê-la como realidade?

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