A Polícia Federal acaba de revelar mais um capítulo do velho manual da corrupção à brasileira: uma investigação aponta que parlamentares da base do governo estariam cobrando um “pedágio” de 12% sobre emendas liberadas para obras públicas, em especial no Nordeste. E o mais grave: o nome do líder do governo Lula no Congresso, senador Randolfe Rodrigues, aparece citado nos documentos analisados.
O esquema, desvendado pela Operação Fundo no Poço, mira o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), órgão ligado ao Ministério da Integração. Segundo os investigadores, a engrenagem funcionava com a participação de servidores públicos, empresários e agentes políticos. Tudo girava em torno de uma equação simples e perversa: para liberar recursos de emendas parlamentares, era exigida uma comissão ilegal de 12% do valor.
As emendas, que deveriam servir para mudar a vida de comunidades carentes com perfuração de poços e obras de infraestrutura hídrica, viraram moeda de troca. Empresas contratadas por prefeituras — muitas vezes de pequeno porte — entravam no jogo, pagavam o “pedágio” e tocavam obras financiadas com dinheiro público.
A origem da apuração, segundo a PF, foi uma denúncia interna de servidores do próprio Dnocs e da Controladoria-Geral da União (CGU). Um dos nomes que surge nos papéis é o de Randolfe Rodrigues, que teria indicado mais de R$ 25 milhões em emendas para o órgão nos últimos dois anos. Até o momento, não há acusação formal contra o senador, que nega qualquer envolvimento.
O silêncio do Planalto só reforça o desconforto: em tempos de orçamento turbinado por emendas parlamentares, o risco de transformar dinheiro público em barganha política é cada vez mais real — e cada vez menos escondido. A prática do “toma lá, dá cá” segue firme, mesmo sob governos que prometiam nova política.
O caso expõe mais do que um escândalo: mostra o quão enraizado está o desvio de finalidades no uso das emendas. Quando a propina vira regra e não exceção, quem perde é o povo — que continua sem água, sem poço, e com o bolso sendo furado por dentro do Congresso.