A investigação sobre o escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS ganhou mais um capítulo envolvendo nomes próximos ao poder. A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, aparece no centro de uma apuração da Polícia Federal que tenta esclarecer possíveis conexões entre ela, o lobista Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e o próprio Lulinha.
O caso faz parte da Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de descontos não autorizados em benefícios de aposentados e pensionistas. Segundo as investigações, mais de R$ 6 bilhões teriam sido retirados de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024.
Roberta foi alvo de buscas em dezembro de 2025. A Polícia Federal identificou pagamentos de uma empresa ligada ao Careca do INSS para uma companhia da empresária. O valor total chegaria a R$ 1,5 milhão. De acordo com a PF, os repasses teriam sido justificados por serviços que, segundo a investigação, não teriam sido realizados.
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi uma mensagem apreendida pela polícia. Nela, o Careca do INSS pede a um operador que transfira R$ 300 mil para uma empresa em nome de Roberta. Ao ser questionado sobre o destinatário do dinheiro, ele respondeu que seria “o filho do rapaz”. A partir dessa frase, a PF passou a apurar se a expressão poderia se referir a Lulinha e se o filho do presidente teria alguma ligação oculta com o lobista.
A investigação também encontrou uma troca de mensagens em que Roberta teria dito ao Careca do INSS: “Some com esses telefones. Joga fora”. Para a Polícia Federal, a atuação da empresária pode ter sido relevante para ocultação de patrimônio, movimentação de valores, gestão de contas bancárias e uso de empresas em possíveis operações de lavagem de dinheiro.
Um funcionário do Careca do INSS, identificado como Edson Claro, afirmou em depoimento que o lobista pagava Lulinha mensalmente e que ostentava publicamente sua ligação com o filho do presidente da República. Apesar disso, a quebra de sigilo bancário, fiscal e telemático de Lulinha não apontou repasses diretos feitos pelo lobista a ele.
A quebra de sigilo foi autorizada no início de 2026 pelo ministro André Mendonça, do STF, relator do caso, a pedido da própria Polícia Federal.
Em depoimento prestado no dia 20 de maio de 2026, Roberta Luchsinger afirmou que apresentou Lulinha ao Careca do INSS antes da deflagração da Operação Sem Desconto. A defesa de Fábio Luís Lula da Silva também admitiu, em março deste ano, que o lobista pagou despesas de uma viagem feita por Lulinha a Portugal, em 2024.
Segundo os advogados, Lulinha teria sido convidado para conhecer a produção de medicamentos à base de canabidiol e acompanhou o Careca do INSS sem qualquer compromisso comercial. A defesa nega que ele tenha participado de negociações, investido valores, prestado trabalho ou recebido proposta de associação no projeto World Cannabis, ligado ao lobista.
Até o momento, Lulinha não foi indiciado e não é considerado formalmente investigado. Roberta também nega irregularidades e afirma estar sendo criminalizada apenas por ser amiga do filho do presidente.
Já o Careca do INSS está preso desde setembro de 2025. Em depoimento à CPI do INSS, declarou que sua prosperidade seria fruto de trabalho honesto e negou ter patrimônio oriundo de práticas ilícitas.
O caso, no entanto, segue provocando desgaste político. Afinal, quando uma investigação sobre desvios bilionários de aposentados começa a cruzar o caminho de amigos, viagens pagas, empresas suspeitas e mensagens para “sumir” com telefones, a pergunta é inevitável: até onde essa rede realmente vai?
Por enquanto, a PF ainda tenta ligar os pontos. Mas o escândalo do INSS já deixou claro que o rombo não atingiu apenas o bolso dos aposentados. Acertou também em cheio a confiança do cidadão em quem deveria proteger o dinheiro de quem trabalhou a vida inteira.

