A política, quando quer, dá voltas curiosas. E na Bahia, o movimento mais recente do bolsonarismo pode acabar abrindo uma avenida para ACM Neto na disputa pelo Governo do Estado em 2026.
Depois de uma eleição marcada por cobrança de palanque, disputa interna na direita e divisão de votos, o grupo ligado à família Bolsonaro parece ter entendido uma coisa simples: insistir em briga contra ACM Neto pode ser bom para o ego de alguns, mas ruim para quem quer derrotar o PT na Bahia.
A nova postura atribuída a Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro muda o eixo da conversa. Em vez de exigir que Neto declare apoio imediato ao projeto presidencial bolsonarista, a estratégia agora seria mais pragmática: apoiar ACM Neto no estado para enfraquecer o PT onde ele é historicamente forte.
E aí mora o ponto central. ACM Neto pode ser o maior beneficiado dessa virada.
Em 2022, o ex-prefeito de Salvador tentou caminhar com as próprias pernas na eleição estadual. Não abraçou Lula, não subiu no palanque de Bolsonaro no primeiro turno e buscou preservar uma posição que lhe permitisse dialogar com diferentes fatias do eleitorado baiano. O cálculo tinha lógica. A Bahia é um estado onde Lula sempre teve força, e bater continência para Bolsonaro naquele momento poderia fechar portas importantes no interior.
O problema é que o bolsonarismo não comprou essa leitura. Jair Bolsonaro decidiu apostar em João Roma, criando uma candidatura própria ao governo. O resultado é conhecido: Roma não chegou perto da competitividade, Bolsonaro perdeu feio na Bahia e ACM Neto acabou derrotado por Jerônimo Rodrigues no segundo turno.
Ou seja, a direita saiu dividida e o PT agradeceu.
Agora, o cenário parece caminhar para outro desenho. Se o bolsonarismo realmente deixar de tratar ACM Neto como adversário e passar a enxergá-lo como o nome mais viável para enfrentar o PT na Bahia, Neto ganha fôlego, reduz resistências na direita e mantém espaço para conversar com o eleitorado mais amplo.
Essa é a grande vantagem.
ACM Neto não precisa, pelo menos neste momento, se prender a uma camisa de força nacional. Pode manter uma postura mais estadualizada, focada nos problemas da Bahia, enquanto recebe o apoio de setores bolsonaristas interessados em derrotar Jerônimo e o grupo petista.
Na prática, é como se o bolsonarismo dissesse à sua própria base: o adversário principal na Bahia é o PT, não ACM Neto.
Esse recado pode ter peso.
Principalmente porque, em 2022, um fenômeno chamou atenção: o chamado eleitor “Luneto”, aquele que votou em Lula para presidente e em ACM Neto para governador. Segundo a análise de Raul Monteiro, cerca de 1,2 milhão de eleitores seguiram esse caminho. Esse grupo foi decisivo para levar Neto ao segundo turno e mostrou que o ex-prefeito tinha penetração para além da bolha tradicional da direita.
É justamente esse eleitor que ACM Neto precisa preservar.
Se colar demais em um projeto presidencial de direita logo no primeiro turno, pode assustar parte desse público. Se se afastar demais, pode irritar a base bolsonarista. O segredo está no equilíbrio. E a nova postura de Flávio e Eduardo Bolsonaro, se confirmada, ajuda Neto a caminhar nessa linha fina sem carregar sozinho o peso da pressão ideológica.
João Roma, que em 2022 foi usado como alternativa bolsonarista ao governo, hoje aparece em outro lugar do tabuleiro. A tendência apontada é que ele dispute o Senado na chapa de ACM Neto. Isso também reforça o sinal de acomodação entre antigos adversários. Na política, inimigo de ontem pode virar aliado de amanhã quando o adversário maior continua sentado no Palácio de Ondina.
Há ainda outro nome no radar: Ronaldo Caiado. Para ACM Neto, uma candidatura presidencial de Caiado poderia funcionar como saída estratégica, especialmente se ele quiser evitar uma vinculação automática ao bolsonarismo. Ainda que Caiado não esteja consolidado como alternativa nacional, sua presença ajudaria Neto a escapar da narrativa petista de que ele não tem lado ou depende da família Bolsonaro.
Mas, no fundo, a questão baiana é mais direta: ACM Neto quer transformar 2026 numa disputa sobre a Bahia.
E esse é o ponto que mais preocupa o governo.
Quando a eleição fica nacionalizada demais, o PT joga em casa. Usa Lula como escudo, empurra a discussão para Brasília e tenta transformar qualquer adversário em extensão do bolsonarismo. Mas quando o debate desce para segurança pública, saúde, educação, obras, estradas, interior abandonado e desempenho do governo estadual, a conversa muda de figura.
É nesse terreno que ACM Neto pode crescer.
A nova postura do bolsonarismo, portanto, pode ser menos uma gentileza e mais um cálculo de sobrevivência. Depois do erro de 2022, parte da direita parece ter percebido que dividir o campo oposicionista na Bahia é entregar o jogo antes do apito final.
Para ACM Neto, a oportunidade é clara. Ele pode reunir a oposição, reduzir ruídos com o eleitor bolsonarista, manter diálogo com setores moderados e se apresentar como o nome mais competitivo contra o PT.
Em política, nem sempre ganha quem grita mais alto. Às vezes, ganha quem entende melhor o tempo do jogo.
E, neste momento, o jogo pode estar começando a virar para ACM Neto.





