Ameaças, extorsões e ataques atribuídos ao Comando Vermelho já provocaram o fechamento de negócios, a paralisação de serviços e até a venda de água potável sob escolta policial. O avanço das facções sobre atividades econômicas expõe uma questão alarmante: até onde vai o poder do crime quando o cidadão precisa de proteção para exercer o direito de trabalhar?
O empresário abre as portas, contrata funcionários, paga impostos, enfrenta a burocracia e tenta manter o negócio funcionando. Mas, em algumas regiões do Ceará, tudo isso parece não ser suficiente. Agora, para continuar trabalhando, comerciantes e prestadores de serviços também precisam enfrentar uma ameaça que nenhuma empresa deveria conhecer: a cobrança de taxas por organizações criminosas.
O problema deixou de ser apenas uma disputa territorial entre facções. Há registros de grupos criminosos tentando controlar quem pode vender água, fornecer internet e manter atividades comerciais em determinadas comunidades.
E as consequências já são concretas. Empresas fecharam, trabalhadores perderam empregos e moradores passaram a enfrentar dificuldades para acessar serviços essenciais.
Quando o crime determina quem pode trabalhar
Um dos exemplos mais emblemáticos aconteceu em março de 2025, quando a GPX Telecom anunciou o encerramento de suas atividades em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.
A empresa atuava havia nove anos no mercado e teve sua infraestrutura destruída em um ataque atribuído ao Comando Vermelho. O episódio ocorreu em meio a uma sequência de ações contra provedores de internet.
Segundo informações divulgadas pela Associação dos Provedores do Ceará (Uniproce) em abril de 2025, pelo menos 15 provedores haviam fechado e aproximadamente 200 trabalhadores perdido seus empregos em decorrência da violência contra o setor.
O mecanismo investigado pelas autoridades era tão simples quanto perverso: criminosos exigiam pagamentos de empresas para permitir que continuassem operando.
Uma investigação divulgada pela Folha de S.Paulo revelou cobranças que chegavam a R$ 20 por cliente atendido. Quem não aceitava as condições ficava sujeito à destruição de equipamentos, invasões e ataques às instalações.
Na prática, a facção tentava assumir uma autoridade que não possui: decidir quem poderia empreender e quem deveria abandonar o mercado.
E quando uma organização criminosa consegue impor essas condições, não é apenas o empresário que perde. A população perde fornecedores, os trabalhadores perdem oportunidades e a economia local passa a funcionar sob intimidação.
A violência chega às fábricas e ameaça a produção industrial
O problema também ultrapassou as portas dos pequenos estabelecimentos.
Em abril de 2026, o empresário e deputado estadual catarinense Antídio Lunelli (MDB) declarou, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, que uma fábrica do Grupo Lunelli, instalada em Maracanaú, precisou suspender um turno de trabalho em razão de restrições de circulação que, segundo ele, teriam sido impostas por facções criminosas.
Lunelli afirmou que a medida foi adotada em janeiro e que mais de 200 indústrias enfrentavam dificuldades semelhantes. Esse número, porém, é uma declaração do parlamentar e não foi confirmado de forma independente pelas fontes consultadas.
O relato levanta uma preocupação que vai além da segurança pública: como garantir investimentos, produtividade e geração de empregos em localidades onde trabalhadores podem ter medo de sair de casa para cumprir sua jornada?
Há uma diferença entre uma empresa enfrentar dificuldades econômicas e ter sua operação condicionada às ordens de criminosos. No segundo caso, o problema envolve diretamente a capacidade do Estado de garantir a liberdade de circulação e o funcionamento das atividades produtivas.





