A Bahia apareceu entre os principais destinos da publicidade digital do governo Lula nas plataformas da Meta, dona do Facebook e do Instagram. Segundo levantamento citado pelo Política Livre, o estado foi o terceiro do país em número de ações publicitárias do governo federal, recebendo R$ 753,1 mil em 34 anúncios entre outubro de 2025 e abril de 2026.
À primeira vista, pode parecer apenas uma estratégia de comunicação institucional. Mas, olhando o tabuleiro político baiano, o dado ganha outro peso.
A Bahia, que durante anos foi tratada pelo PT como território praticamente garantido, hoje já não oferece o mesmo conforto de antes. O desgaste do governo estadual, as dificuldades na segurança pública, a pressão sobre serviços essenciais e o crescimento da oposição acenderam um alerta vermelho no grupo petista. E, quando o chão começa a tremer, a propaganda costuma aparecer como escora.
O governo federal gastou R$ 23 milhões em anúncios na Meta no período analisado. Desse total, 25% foi destinado a campanhas com menções a estados, cidades e até bairros. Ou seja, não estamos falando de comunicação genérica. Estamos falando de publicidade direcionada, calculada, feita para chegar em territórios específicos com mensagens sob medida.
E a Bahia está no topo dessa mira.
O estado ficou atrás apenas do Rio de Janeiro, que recebeu R$ 1,289 milhão em 28 anúncios, e de Minas Gerais, com R$ 1,149 milhão em 59 anúncios. Juntos, Rio e Minas concentraram 42% dos anúncios computados. A Bahia, logo em seguida, confirma que o Nordeste segue sendo peça central na estratégia de comunicação do Palácio do Planalto.
O problema é que, para o cidadão comum, a conta não fecha tão bonita quanto o anúncio. Enquanto o governo investe pesado para divulgar suas ações, a população segue enfrentando problemas reais no dia a dia. Na Bahia, a insegurança continua no centro das preocupações. A saúde pública acumula reclamações. A infraestrutura ainda tropeça em promessas antigas. E a sensação de abandono em várias regiões não se resolve com post patrocinado.
Campanha bem segmentada pode melhorar alcance. Pode gerar curtida, visualização e impressão positiva. Mas não tapa buraco, não reduz fila, não melhora atendimento e não devolve a tranquilidade de quem vive com medo.
Entre os temas impulsionados pelo governo Lula, aparecem a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que representou 21% dos gastos, segurança pública, com 15,8%, além de campanhas sobre violência contra mulheres e crianças e o fim da escala 6×1, ambas com 4,5%.
São temas de forte apelo popular, escolhidos a dedo para criar conexão com o eleitor. Nada disso é por acaso. Em política, comunicação é também tentativa de controle de percepção. E quando um governo precisa falar muito sobre o que está fazendo, muitas vezes é porque a realidade na rua não está convencendo sozinha.
Na Bahia, esse movimento parece ainda mais evidente. O PT sabe que o jogo político no estado já não é o mesmo. A oposição cresceu, ganhou musculatura e passou a disputar narrativa com mais força. O eleitor baiano também mudou. Está mais atento, mais cobrado pela realidade e menos disposto a aceitar propaganda como substituta de entrega.
Por isso, o volume de anúncios direcionados ao estado soa menos como rotina administrativa e mais como sinal de preocupação. A máquina federal entrou no digital para tentar sustentar uma imagem que, na prática, começa a enfrentar resistência.
No fim das contas, o dado expõe uma contradição incômoda: enquanto o governo vende eficiência nas redes, a população cobra resultado fora delas. E se a Bahia virou uma das vitrines preferidas da propaganda oficial, talvez seja porque o Planalto já percebeu que, por aqui, o jogo começou a virar.





