A política baiana segue mostrando que, no interior, pragmatismo costuma falar mais alto do que discurso partidário. Em Cairu, no Baixo Sul da Bahia, o prefeito Hildécio Meireles, do União Brasil, sinalizou uma aproximação institucional com o governador Jerônimo Rodrigues, do PT, e afirmou que a relação entre município e Estado vive uma espécie de “virada de página”.
A declaração foi dada durante uma agenda no distrito de Torrinhas, na quinta-feira, 21 de maio de 2026, durante a assinatura da ordem de serviço para as obras da BA-884, estrada que liga a comunidade de Torrinhas à sede do município.
Na fala, Hildécio adotou um tom conciliador e fez questão de destacar o novo momento de diálogo com o governo estadual.
“Agora, com esse estreitamento de entendimento entre município e governo do estado, vamos de mãos dadas. Não apenas virar uma página, mas vamos ler um livro todo”, afirmou o prefeito.
A frase, além de institucional, carrega evidente peso político. Hildécio é filiado ao União Brasil, partido que faz oposição ao governo Jerônimo no plano estadual. Ainda assim, o gestor municipal preferiu reforçar a importância da parceria com o Estado, sobretudo em torno de obras e investimentos para Cairu e para o Baixo Sul.
Durante o evento, o prefeito também ressaltou os investimentos do governo estadual na região e demonstrou satisfação com o diálogo aberto com a gestão petista. A agenda contou com representantes do governo e lideranças políticas locais, em mais um movimento de aproximação entre o Palácio de Ondina e prefeitos do interior.
E é aí que mora o ponto central.
Na Bahia, a disputa política de 2026 não será decidida apenas nos grandes centros ou nos discursos inflamados das capitais. O interior tem peso, capilaridade e voto. Prefeitos sabem disso. O governo também. Por isso, cada ordem de serviço, cada visita oficial e cada foto ao lado de um gestor municipal vira peça de um tabuleiro maior.
Para Jerônimo, aproximar-se de prefeitos de partidos adversários ajuda a ampliar presença política nos municípios e fortalecer a imagem de um governo aberto ao diálogo. Para os prefeitos, a conta também é simples: obras, recursos e entregas concretas falam mais alto para a população do que brigas partidárias distantes da realidade local.
No caso de Cairu, a pavimentação da BA-884 aparece como símbolo dessa nova fase. Uma estrada que liga comunidades, melhora deslocamentos e atende a uma demanda regional acaba servindo também como ponte política entre grupos que, no discurso eleitoral, costumam estar em lados opostos.
A “virada de página” citada por Hildécio pode até ser apresentada como gesto institucional. Mas, no cenário atual da Bahia, nada acontece isoladamente. Cada aproximação no interior é também um recado. E, quando prefeito de oposição começa a falar em caminhar “de mãos dadas” com o governo, é sinal de que o jogo político já começou a se movimentar antes mesmo da campanha oficial.
No fim das contas, a Bahia segue assistindo a uma velha cena com nova embalagem: no interior, quem entrega obra, senta à mesa e aparece perto dos prefeitos costuma sair na frente. E Jerônimo parece disposto a disputar esse terreno palmo a palmo.





