O Irã afirmou ter assinado eletronicamente um acordo com os Estados Unidos para encerrar a guerra no Oriente Médio. Do lado americano, um funcionário dos EUA disse à AFP que o presidente Donald Trump assinou pessoalmente o documento durante um jantar com o presidente da França, Emmanuel Macron, após a cúpula do G7. A informação foi publicada pela Folhapress e reproduzida pelo Política Livre.
O entendimento, chamado de memorando de Islamabad, é tratado como uma tentativa de pôr fim ao conflito iniciado em 28 de fevereiro de 2026, após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. A guerra se espalhou pela região e atingiu especialmente o Irã e o Líbano, deixando milhares de mortos, segundo a reportagem.
Irã confirma assinatura eletrônica
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghai, afirmou que o texto do memorando foi finalizado com a assinatura dos presidentes. Para ele, a fase agora deixa de ser a diplomacia de anúncio e passa a ser a diplomacia da execução.
Baghai também disse que, como o documento já foi assinado de forma eletrônica, uma cerimônia presencial prevista para sexta-feira, 19 de junho, na Suíça, “não faz sentido”. Na prática, o recado iraniano é claro: o acordo já existe, e o que importa agora é saber se será cumprido.
Sanções, petróleo e urânio no centro da negociação
Pelo texto do acordo, os Estados Unidos devem suspender, a partir da assinatura, sanções contra a venda de petróleo iraniano e bloqueios aos portos do país. A suspensão total das sanções, no entanto, dependerá de um acordo definitivo ao fim de um período de 60 dias de negociações.
Nesse prazo, Washington e Teerã deverão discutir um mecanismo para lidar com as reservas de urânio enriquecido do Irã. O caminho previsto é a diluição do material sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA.
Esse ponto é um dos mais sensíveis do acordo. Para os Estados Unidos e seus aliados, impedir que o Irã desenvolva armas nucleares é a prioridade. Para Teerã, a questão nuclear sempre foi tratada como tema de soberania nacional. É aí que mora uma das maiores fragilidades do pacto.
Hormuz será o primeiro grande teste
Outro ponto decisivo é o Estreito de Hormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo. O Irã deverá permitir, em até 30 dias, o restabelecimento completo do tráfego marítimo na região.
Mas já há sinal de tensão. O negociador iraniano Mohamad Baqer Qalibaf afirmou que Hormuz não voltará à situação anterior à guerra e defendeu que o Irã tem direito soberano sobre o estreito, inclusive com possibilidade de cobrança por serviços.
O memorando, porém, prevê passagem segura de navios comerciais sem cobrança durante o período de 60 dias. Ou seja: antes mesmo da implementação plena, o acordo já nasce com interpretações diferentes entre as partes.
Líbano entra na conta
O acordo também inclui a cessação dos confrontos no Líbano. O líder do Hezbollah, Naim Qasem, comemorou o entendimento e classificou o acordo como uma “grande vitória” para o Irã.
Segundo a matéria, o Líbano entrou diretamente no conflito após o Hezbollah disparar foguetes contra Israel em 2 de março de 2026, em apoio ao Irã. Qasem agradeceu ao Irã por incluir a frente libanesa no acordo e pediu que o momento fosse usado para “expulsar Israel” do território libanês.
Essa inclusão amplia o peso político do pacto, mas também aumenta seu risco. Afinal, não se trata apenas de uma negociação entre Washington e Teerã. O acordo toca em interesses de Israel, Hezbollah, Líbano, países árabes, Europa, China e no mercado global de energia.
G7 celebra, China observa
Os países do G7 saudaram o acordo como uma oportunidade histórica. A avaliação do grupo é que o entendimento pode impedir que o Irã obtenha armas nucleares e reduzir ameaças ligadas às suas atividades regionais e balísticas.
A China também se manifestou, defendendo que todas as partes implementem o acordo e evitem interferências externas. Pequim tem interesse direto na estabilidade do Estreito de Hormuz, já que depende fortemente do petróleo importado da região.
Análise Soberana
O acordo entre Estados Unidos e Irã é histórico pelo peso dos envolvidos, mas ainda está longe de representar paz consolidada. O documento assinado é importante, mas a paz real depende de três pontos: cumprimento das sanções, controle do programa nuclear iraniano e reabertura segura do Estreito de Hormuz.
Trump sai do G7 tentando se apresentar como fiador de um grande acordo internacional. O Irã, por sua vez, tenta transformar resistência militar em vitória diplomática. Já o Hezbollah usa o pacto para reforçar sua narrativa de força no Líbano.
O problema é que o Oriente Médio não costuma obedecer ao roteiro dos comunicados oficiais. A paz anunciada no papel pode ser desafiada rapidamente por disputas territoriais, ataques isolados, pressões internas e divergências sobre soberania.
A pergunta que fica é simples: o acordo encerra uma guerra ou apenas abre uma nova fase de disputa, agora travada nos bastidores da diplomacia?
Por enquanto, o mundo comemora a assinatura. Mas o verdadeiro teste começa agora.





