Bahia acende alerta alimentar

Antes da sanfona tocar, do milho virar canjica e do amendoim chegar à mesa, existe uma etapa que quase nunca aparece no brilho das festas juninas: a produção no campo. E é justamente nesse ponto que a Bahia acende um alerta importante.

A matéria mostra que as mudanças climáticas já colocam em discussão um tema sensível para o estado: a segurança alimentar. O impacto não é apenas ambiental. É social, econômico, territorial e político.

Na Bahia, alimentos tradicionais do São João, como milho, amendoim e mandioca, dependem diretamente da agricultura familiar e da pecuária familiar. São setores que sentem primeiro os efeitos da seca, das irregularidades climáticas e da falta de estrutura para garantir produção estável.

Os números mostram o tamanho do alerta

Com base em dados do AdaptaBrasil, sistema vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a reportagem aponta que, dentro do índice de risco de impacto das mudanças climáticas sobre a disponibilidade de alimentos, a Bahia tinha:

212 municípios em risco muito baixo, 113 em risco baixo, 66 em risco médio, 22 em risco alto e 4 em risco muito alto.

Os municípios em situação de risco muito alto são Matina, Malhada, Sítio do Mato e Abaré.

Mas o quadro fica mais preocupante quando se observa o índice de vulnerabilidade, que mede a suscetibilidade dos territórios aos efeitos da seca sobre a produção de alimentos. Nesse recorte, 325 municípios baianos aparecem em nível médio, 64 em nível alto e Rodelas surge como o único município em nível muito alto.

A própria matéria faz uma ressalva relevante: os dados do painel são de 2017. Ou seja, já não traduzem totalmente a realidade atual, marcada por urbanização, novos eventos climáticos, avanço de atividades econômicas sobre o território e mudanças nas políticas públicas.

Não é só seca. É modelo de desenvolvimento

A presidente do Consea-BA, Débora Rodrigues, defende que o debate precisa sair da velha lógica de “combate à seca” e avançar para a convivência com o semiárido. Essa mudança é fundamental porque o semiárido não é um problema a ser vencido. É um território vivo, produtivo e habitado.

Na Bahia, 287 municípios fazem parte do Semiárido Brasileiro, o equivalente a 68,8% do estado. Isso significa que qualquer política séria de segurança alimentar precisa olhar para essa realidade com estratégia permanente, e não apenas com ações emergenciais em períodos de crise.

Débora também chama atenção para os efeitos da ação humana sobre o território. Fenômenos como seca e El Niño fazem parte da dinâmica natural, mas podem ser agravados por modelos de exploração que pressionam o ambiente.

A matéria cita a presença de mineradoras, empreendimentos de energia eólica e o avanço do desmatamento como pontos de preocupação. Em 2025, a Bahia foi o terceiro estado com maior índice de desmatamento, com 110.616 hectares desmatados, sobretudo no oeste baiano, região inserida na fronteira agrícola do Matopiba.

A fome ainda não saiu do mapa

Um dos trechos mais fortes da reportagem está na frase de Débora Rodrigues: “O Brasil saiu do mapa da fome, mas a fome ainda não saiu do mapa do Brasil.”

Na Bahia, os números reforçam essa preocupação. Dados de 2024 apontam que cerca de 37,4% da população baiana vivia em algum nível de insegurança alimentar. Desse total, 23,6% estavam em insegurança leve, 8,4% em moderada e 5,4% em grave.

O dado derruba qualquer tentativa de tratar segurança alimentar como tema distante. A insegurança alimentar não está apenas no campo, nem apenas em comunidades rurais. Segundo Débora, na Bahia, as pesquisas apontam que a insegurança alimentar moderada e grave é maior nas cidades do que no campo.

Isso expõe uma contradição dura: o alimento pode até ser produzido, mas nem sempre chega com preço, qualidade e regularidade à mesa de quem mais precisa.

Convivência com o semiárido precisa sair do papel

A Bahia discute uma legislação estadual de convivência com o semiárido, baseada no Plano Estadual de Convivência com o Semiárido. Segundo a matéria, o plano reúne mais de 168 ações e propõe uma atuação transversal, envolvendo áreas como meio ambiente, assistência social, saúde, acesso à água, produção, território e alimentação.

A política de cisternas é um exemplo citado como experiência que nasceu da sociedade civil e, a partir de 2003, passou a ganhar forma como política pública. Esse tipo de ação mostra que soluções existem. O problema é escala, continuidade e orçamento.

Débora resume o desafio ao afirmar que as políticas públicas já foram testadas e apresentam resultado. O que falta é fortalecer, ampliar e financiar melhor essas iniciativas para que elas cheguem a mais famílias.

Análise Soberana

O São João da Bahia não é apenas festa. É cultura, economia, tradição e alimento. Mas a mesma mesa que celebra o milho, o amendoim e a mandioca também revela uma fragilidade que o poder público não pode ignorar.

A mudança climática não é mais uma ameaça abstrata. Ela já pressiona a produção, encarece alimentos, afeta pequenos produtores e amplia desigualdades. Quando o clima muda, quem paga primeiro a conta é quem depende da terra, da chuva e de uma política pública que muitas vezes chega tarde.

A Bahia precisa tratar segurança alimentar como prioridade estratégica. Não basta celebrar a força do semiárido em discursos. É preciso proteger território, garantir água, fortalecer a agricultura familiar, preservar a caatinga e enfrentar modelos econômicos que degradam o ambiente sem devolver desenvolvimento real à população.

A frase final da reportagem resume o ponto central: não existe segurança alimentar sem água, sem terra e sem território.

No fim das contas, a pergunta é simples: a Bahia vai planejar o futuro do seu povo ou continuar reagindo apenas quando a crise bater à porta?

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