ACM Neto saiu maior das urnas em 2026 do que saiu em 2022. Teve mais votos, venceu mais cidades entre as maiores da Bahia, avançou em municípios importantes e manteve Salvador sob sua liderança.
Mesmo assim, perdeu novamente. E perdeu por mais de 1 milhão de votos.
Para mim, é justamente aí que está o ponto principal dessa eleição: o problema de ACM Neto nunca foi apenas crescer. O problema era onde crescer.
Em 2022, o alerta já estava dado. Neto venceu 17 das 20 maiores cidades da Bahia no segundo turno e, ainda assim, não conseguiu chegar ao governo. Quatro anos depois, a história se repetiu de outra maneira.
No primeiro turno de 2026, ele passou de aproximadamente 3,31 milhões para 3,62 milhões de votos. Ganhou mais de 300 mil votos. Entre as 20 maiores cidades, passou de 11 vitórias para 13. Em Feira de Santana, cresceu de cerca de 140 mil para mais de 175 mil votos. Também avançou em Vitória da Conquista.
Portanto, não faz sentido dizer que ACM Neto simplesmente perdeu força.
Ele cresceu.
Só que Jerônimo cresceu muito mais.
Enquanto Neto acrescentou aproximadamente 308 mil votos à sua votação, Jerônimo avançou cerca de 607 mil. Praticamente o dobro.
E existe uma diferença ainda mais importante: o crescimento de Jerônimo foi espalhado pela Bahia.
O mapa da eleição diz muita coisa.
Jerônimo venceu em 376 dos 417 municípios baianos. ACM Neto venceu em apenas 41.
Essa diferença territorial ajuda a explicar por que grandes vitórias em Salvador, Feira, Conquista e outros centros urbanos não conseguiram compensar as vantagens que o governador acumulou município após município.
Uma eleição estadual não é uma disputa para saber quem vence as cidades mais famosas. É uma soma.
O voto dado em uma cidade de cinco mil habitantes vale exatamente o mesmo que o voto dado em Salvador.
E quando um candidato abre pequenas e médias vantagens em centenas de municípios, essa soma se transforma em uma muralha eleitoral.
Outro dado ajuda a compreender o cenário.
ACM Neto chegou à eleição com o apoio de prefeitos de sete das dez cidades mais populosas da Bahia. É uma força política relevante.
Jerônimo, porém, tinha apoio declarado de aproximadamente 346 prefeitos, contra cerca de 53 de Neto.
Prefeito não é dono do voto de ninguém. Isso precisa ficar claro.
Mas também seria ingenuidade imaginar que uma rede de centenas de prefeitos não tenha peso político.
Por trás de um prefeito existem vereadores, lideranças comunitárias, secretários, grupos políticos, relações institucionais e uma presença diária no município.
Enquanto Neto reuniu apoios muito fortes em algumas das maiores cidades, Jerônimo espalhou sua rede política pelo estado inteiro.
E talvez aí esteja uma das principais falhas estratégicas da oposição.
Depois da derrota de 2022, ampliar essa presença municipal deveria ter sido prioridade absoluta.
Só que, em vez de conseguir fechar essa distância, Neto ainda viu nove prefeitos do próprio União Brasil declararem apoio a Jerônimo.
Não se trata de dizer que todos mudaram de lado pela mesma razão. Cada município possui suas próprias relações políticas e administrativas.
Mas quando nove prefeitos do partido do principal candidato de oposição atravessam a fronteira e passam a apoiar o governador, isso também revela quem conseguiu exercer maior força política no território.
E existe Salvador.
Talvez seja o número mais simbólico de toda a eleição.
Em 2022, ACM Neto abriu aproximadamente 236 mil votos sobre Jerônimo na capital.
Em 2026, essa diferença caiu para aproximadamente 139 mil.
Ou seja: quase 100 mil votos desapareceram da vantagem de Neto no seu principal reduto.
E o mais interessante é que Neto não necessariamente desabou em Salvador. Jerônimo simplesmente conseguiu crescer muito mais.
Esse detalhe é fundamental.
Para mudar uma eleição, nem sempre você precisa vencer no território do adversário.
Às vezes basta perder por menos.
Jerônimo não precisava ganhar Salvador. Precisava impedir que Salvador entregasse a Neto aquela enorme reserva de votos capaz de compensar as derrotas sofridas pelo interior.
Foi exatamente o que aconteceu.
ACM Neto continuou vencendo Salvador, mas Salvador deixou de ser o mesmo colchão eleitoral.
Enquanto isso, no interior, Jerônimo acumulava vantagem após vantagem.
Esse resultado também mostra o peso dos quatro anos de governo.
Durante esse período, Jerônimo circulou pela Bahia, manteve relação institucional com prefeituras, anunciou e entregou obras, firmou convênios e esteve presente politicamente em municípios grandes, médios e pequenos.
Essa presença não começou durante a campanha.
Ela foi construída durante quatro anos.
E talvez uma das maiores lições dessa eleição esteja justamente aí.
A política baiana é muito maior do que Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista.
Essas cidades dominam a cobertura, concentram atenção política e naturalmente possuem enormes eleitorados.
Mas existem centenas de municípios que raramente ocupam o centro das discussões e que, somados, decidem uma eleição.
ACM Neto cresceu onde já era forte.
Jerônimo cresceu onde precisava crescer e também conseguiu diminuir as vantagens do adversário em alguns dos seus maiores redutos.
No fim das contas, essa é a diferença.
A derrota de Neto em 2026 não é a história de um candidato que perdeu eleitores.
É a história de um candidato que aumentou sua votação, mas não conseguiu alterar suficientemente a geografia do próprio voto.
Ele saiu de 2022 sabendo exatamente onde estava sua fragilidade.
Quatro anos depois, teve mais de 300 mil votos adicionais.
Só que Jerônimo ganhou quase o dobro e transformou sua presença territorial em vantagem eleitoral.
Se existe uma pergunta que a oposição baiana precisa fazer depois dessa eleição, talvez não seja apenas “como conquistar mais votos?”.
A pergunta é outra:
Como chegar a uma Bahia que existe muito além dos grandes centros?
Porque enquanto um lado continuar vencendo as principais vitrines e o outro continuar vencendo centenas de municípios, o mapa continuará contando a mesma história.
E eleição para governador não se vence apenas nas maiores cidades.
Vence-se na Bahia inteira.




