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O preço humano por trás da fábrica da BYD em Camaçari
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O preço humano por trás da fábrica da BYD em Camaçari

A BYD viveu em abril um mês histórico no Brasil. Pela primeira vez, a montadora chinesa superou a Volkswagen e assumiu a liderança nas vendas de veículos no varejo nacional. Foram 14,9 mil modelos elétricos e híbridos vendidos, contra 14,8 mil automóveis da marca alemã.

No mercado, a notícia confirmou a força da empresa que se tornou símbolo da nova indústria automotiva, da eletrificação e da promessa de modernização. Mas, no mesmo mês em que acelerou nas vendas, a BYD também viu seu nome entrar em uma lista que nenhuma empresa gostaria de frequentar: a chamada “lista suja” do trabalho análogo à escravidão.

A inclusão ocorreu mais de um ano depois de uma grande operação resgatar 163 trabalhadores chineses do canteiro de obras da futura fábrica da montadora em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. O caso expôs uma contradição pesada: a mesma empresa que vende inovação, tecnologia e futuro passou a ser associada a um dos problemas mais antigos e vergonhosos do mundo do trabalho.

A “lista suja” reúne empregadores flagrados submetendo trabalhadores a condições degradantes e jornadas exaustivas. Quem entra no cadastro permanece por dois anos. A BYD, porém, ficou apenas três dias. A empresa conseguiu uma liminar na Justiça para retirar seu nome até que o caso fosse julgado pelo Judiciário.

A estratégia não é inédita. Cada vez mais empresas recorrem aos tribunais para tentar sair temporariamente do cadastro. O motivo é simples: além do dano à reputação, estar na lista pode dificultar o acesso a crédito, já que algumas instituições financeiras evitam fazer negócios com empregadores registrados nesse cadastro.

Mas o caso da BYD teve um elemento que chamou ainda mais atenção em Brasília. Uma semana depois da inclusão da empresa na lista, o secretário de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, responsável pela área que elabora o cadastro, foi demitido.

O Ministério do Trabalho afirmou, em nota, que a exoneração foi um “ato administrativo de gestão” e uma prerrogativa do ministro de Estado. Não deu mais explicações.

Para a Associação Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho, a Anafitra, a demissão teria relação direta com o caso da BYD. A entidade enxerga o episódio como parte de uma sequência de interferências políticas atribuídas ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, sobre a atuação técnica dos servidores no combate ao trabalho análogo à escravidão. Segundo a associação, esse movimento já teria começado em outro caso, envolvendo a JBS Aves.

A BYD e o Ministério do Trabalho não responderam aos pedidos de posicionamento feitos pela reportagem.

A história que chegou a Brasília começou na Bahia, ainda em 2024.

A primeira inspeção ao canteiro da BYD ocorreu em 27 de novembro. Procuradores do trabalho foram verificar denúncias de maus-tratos contra funcionários da obra da fábrica, mas não encontraram, naquele momento, nada parecido com o conteúdo recebido dias antes: um vídeo em que um chefe, cidadão chinês, aparecia agredindo colegas de trabalho.

Duas semanas depois, novas informações divulgadas pela imprensa e pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Camaçari reforçaram as suspeitas de graves violações de direitos humanos no local. A partir daí, o Ministério Público do Trabalho acionou a Auditoria-Fiscal do Trabalho na Bahia. Foi montada uma força-tarefa com 41 pessoas.

No dia 9 de dezembro, a equipe voltou ao canteiro.

A operação reuniu procuradores, auditores fiscais do trabalho, agentes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, defensora pública da União, procurador federal, agentes da polícia do Ministério Público da União e seis intérpretes de mandarim trazidos de outros estados.

Logo no primeiro dia, algo chamou atenção. Apesar de ser uma segunda-feira, quase não havia trabalhadores na obra. O relatório da fiscalização apontou a presença de máquinas paradas no galpão, caminhões e escavadeiras estacionados como se tivessem sido abandonados às pressas.

Para os fiscais, havia sinais de que a BYD e suas terceirizadas, entre elas a Jinjiang, responsável pela obra, tentavam dificultar a inspeção. A quase ausência de trabalhadores e a suspeita de que a lista de alojamentos fornecida estava incompleta aumentaram a desconfiança.

Na noite seguinte, os fiscais foram a dois endereços que haviam sido descobertos durante a investigação.

No primeiro, chamado de Casa Amarela, encontraram entre 80 e 100 cidadãos chineses. No segundo, identificado como Churrascaria Pantanal, por causa de um restaurante que funcionava na fachada, havia outros 40 trabalhadores.

O horário avançado impediu a conclusão da inspeção naquele momento, mas o que já havia sido visto era grave: trabalhadores dormindo em camas sem colchões, sobre tábuas de madeira, em casas com péssimas condições de higiene e manutenção. Cozinhas sujas, presença de baratas, acúmulo de lixo e instalações elétricas improvisadas completavam o cenário.

A equipe voltou no dia 17 de dezembro e encontrou mais dois alojamentos que também não haviam sido informados pelas empresas. Neles estavam os demais trabalhadores que formariam o grupo de 163 resgatados.

As inspeções continuaram até o dia 20. O relatório final, com mais de mil páginas, descreveu uma série de violações: alojamentos precários, jornadas exaustivas, trabalho sete dias por semana, descanso apenas em dias de chuva, retenção de salários e retenção de passaportes.

O retrato é duro.

Os trabalhadores resgatados vinham de diferentes regiões da China. Alguns eram analfabetos. Sete eram mulheres. Muitos chegaram ao Brasil depois de ver anúncios de trabalho em grupos no WeChat, aplicativo de mensagens popular na China, ou em murais da Jinjiang em canteiros de obras no país asiático.

O contrato de um ano prometia salários entre 12 mil e 15 mil yuans, valor equivalente a aproximadamente R$ 8,7 mil a R$ 10,7 mil. Mas, segundo os depoimentos, a maioria recebia apenas uma fração disso, entre 4 mil e 6 mil yuans, menos do que ganhava na China.

O restante do pagamento seria feito apenas depois do fim do contrato, após o retorno à China e de forma parcelada. A condição era que o contrato fosse cumprido integralmente. Pela legislação brasileira, esse tipo de retenção é proibido.

Mesmo o dinheiro pago não era simples de usar. Os valores eram depositados em contas bancárias chinesas, muitas vezes inacessíveis a partir do Brasil por causa de bloqueios de internet. Na prática, muitos trabalhadores estavam longe de casa, com pouco dinheiro disponível e pouca liberdade de circulação.

A barreira do idioma agravava o isolamento. As idas ao comércio local dependiam de aplicativos de tradução. Além disso, segundo os relatos, superiores recomendavam que os trabalhadores não saíssem dos alojamentos. À noite, os imóveis eram vigiados por policiais militares armados que estavam de folga.

A maioria também estava sem passaporte. Os fiscais descobriram que os documentos ficavam trancados em um armário dentro de um escritório da obra, cuja localização não havia sido informada à equipe.

As empresas alegaram que precisavam dos passaportes para agendar visitas à Polícia Federal e fazer o Registro Nacional de Estrangeiro. Mas o agendamento poderia ser feito com cópia do documento. Em alguns casos, os trabalhadores ficaram até três meses sem acesso aos próprios passaportes.

As jornadas também pesavam. Muitos só folgavam quando chovia, já que a chuva impedia a continuidade da obra. Embora, em tese, tivessem direito a quatro folgas por mês, o descanso não era remunerado. Por isso, muitos não pediam folga e trabalhavam por meses seguidos.

A rotina normalmente começava antes do sol nascer. A jornada ia das 6h às 17h, sem registro de ponto. A van passava entre 5h e 5h30 para levar os trabalhadores ao canteiro. Para muitos, isso significava acordar às 4h da manhã para disputar lugar na fila dos banheiros, que eram insuficientes para a quantidade de pessoas nos alojamentos.

Quem não conseguia usar o banheiro antes de sair deixava para recorrer aos banheiros químicos da obra, descritos como sem papel higiênico e raramente limpos.

A maioria exercia atividades braçais. Eram pedreiros, carpinteiros, pintores, armadores, mestres e ajudantes de obra. Muitos não estavam acostumados ao calor da Bahia. Em ação civil pública contra a BYD, o Ministério Público do Trabalho afirmou que os trabalhadores não tinham protetor solar e apresentavam pele visivelmente desgastada e manchada.

Um dos resgatados, armador vindo de Chengdu, na província chinesa de Sichuan, contou que foi parar no hospital com insolação. Ele estava no alojamento quando entrou em estado de confusão mental e pediu ao segurança que o levasse ao pronto-socorro.

Outro trabalhador, um carpinteiro, relatou ter cortado o dedo com uma serra elétrica em 5 de dezembro. Disse que estava cansado, sonolento e com muito calor no dia do acidente. Também afirmou não saber ler e que havia assinado o contrato com a Jinjiang sem compreender o conteúdo. Até o depoimento, não sabia se recuperaria totalmente o movimento do dedo machucado.

O caso ainda ganhou um contorno internacional. Segundo a reportagem, os abusos descritos na Bahia são semelhantes aos relatados pela organização China Labor Watch em denúncia sobre a construção da fábrica da BYD em Szeged, na Hungria. A terceirizada responsável pela obra também era a Jinjiang.

A empresa foi procurada, mas não respondeu às acusações.

O episódio coloca a BYD em uma posição delicada. De um lado, a montadora avança no mercado brasileiro, vende cada vez mais carros e se apresenta como protagonista da transição para veículos elétricos e híbridos. De outro, a construção de sua fábrica na Bahia aparece ligada a um relatório com denúncias graves de violações trabalhistas.

É a velha pergunta que o discurso moderno tenta esconder: de que adianta vender futuro, tecnologia e sustentabilidade, se a base da operação carrega práticas que remetem ao passado mais sombrio das relações de trabalho?

A fábrica de Camaçari foi anunciada como símbolo de desenvolvimento, emprego e reindustrialização da Bahia. Mas o caso dos 163 trabalhadores chineses mostra que grandes investimentos também precisam ser acompanhados de fiscalização rigorosa, transparência e responsabilidade.

Porque progresso de verdade não se mede apenas por carros vendidos, fábricas inauguradas ou promessas bilionárias.

Mede-se também pela forma como se trata quem levanta as paredes desse futuro.

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